Não ia escrever nada.
Curiosamente este tem sido um caso que tenho acompanhado por tabela, tenho lido nos blogs e oiço na rádio quando estou no carro. E tanta gente consegue pôr em palavras as dúvidas, receios e perplexidades deste caso muito melhor do que eu.
A falta de tempo crónica de uma mãe em hora de ponta evita que esteja atenta aos noticiários prime-time dos nossos canais. O marido half-british vê os noticiários bifes mais ao serão. Fico de tal forma incomodada que não consigo ficar a ver. (o incómodo vem da forma enviesada como as coisas são apresentadas, pelo menos para mim - ainda hoje a CK conseguiu descrever muito bem esse incómodo) Ontem, se calhar porque jantámos bastante cedo, estávamos todos (é uma casa com 4 elas e 1 ele, mas dá direito a ser no masculino) mais ou menos a ver as notícias (já não sei de que canal, mas para o caso é indiferente).
Às tantas a F diz: 'agora só se fala do caso desta menina inglesa'.
E assim começou uma conversa sobre os cuidados a ter na rua, falar com estranhos, aceitar presentes, boleias etc.
Percebemos que a F tem uma boa noção destes conceitos, para o que contribuiram as visitas da Escola Segura e algumas aulas de Estudo do Meio. Já a C não entendeu tão bem. Mesmo assim a F perguntou 'e se forem os primos que eu não conheço?' 'ó F se não conheces são estranhos, não é?' 'mas os primos de Inglaterra que eu não conheço...' (ficámos a pensar que era por serem de Inglaterra).
Enfim, a conversa foi andando, o tema mudou, que isto das conversas serem como as cerejas é mesmo assim, elas quiseram ir ao andar de cima a casa da avó. Pronto.
Antes de me deitar (a última, como quase todos os dias) fui espreitá-las. A C não estava na cama. Estava na cama com o pai, ambos acordados 'teve um pesadelo por causa da conversa de há bocado', disse o pai. A verdade é que levou imenso tempo a adormecer, eu também, e foi uma noite muito pouco descansada.
De manhã costumamos sair as 4 com o meu pai. Ele toca à campainha e seguimos juntos. As mais velhas foram descendo a escada com ele e eu fiquei para trás a apertar o bibe da V.
Ao almoço (eu vivo no mesmo prédio dos meus pais, trabalho com o meu pai e normalmente almoço com ele) contei-lhe da nossa noite e ele disse-me 'então foi por isso que ela quando chegou à porta da rua perguntou se em Lisboa há estranhos'...
Isto agora devia acabar com uma frase ou um pensamento profundo sobre as nossas crianças e os perigos deste mundo e os medos que lhes passamos e a espontaneidade perdida etc. etc. etc., mas não consigo.
Ainda estou a pensar se devo ou não voltar a falar no assunto, e como.